quarta-feira, 4 de julho de 2012

A Cena em Sergipe. NAPALM.


Hoje vou postar uma narrativa/versão histórica sobre a cena punk/rock de Sergipe. O texto foi retirado do zineblog: http://programaderock.blogspot.com.br/?view=flipcard do blogueiro Napalm.
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ATENÇÃO: VERSÃO REVISTA E AMPLIADA – Este texto já foi publicado, de forma embrionária, em alguns fanzines e sites da internet. A versão que posto agora é revista e ampliada, portanto recomendo uma nova leitura mesmo aos que já o fizeram anteriormente, caso ainda tenham interesse pelo assunto, evidentemente. Gostaria de ressaltar, também, que trata-se de um texto “gonzo”, ou seja, se baseia, principalmente, em minhas memórias e nas memórias de gente que eu ouvi e/ou entrevistei informalmente ao longo dos anos. Em outras palavras: é a MINHA versão dos fatos, portanto não é, necessariamente, a VERDADEIRA versão (se é que ela existe). Fique livre para contestar e/ou reclamar de qualquer trecho que julgue impreciso ou que, sobre o qual, tenha uma outra visão, através do espaço de comentários deste Blog, que está aberto a todos e com a utilização facilitada, sendo permitidas, inclusive, as famigeradas postagens “anônimas”.
por Adelvan Kenobi
Capítulo 01 - A PRIMEIRA “GIG” A GENTE NUNCA ESQUECE!
Era uma tarde chuvosa. Ainda me lembro, eu e mais dois colegas, caminhando rumo à rodoviária, pegando o ônibus e desembarcando em Aracaju - para nós, itabaianenses, quase uma metrópole. Estávamos indo ao nosso primeiro show de rock “underground”. Eu com uma camiseta preta do Slayer, o máximo em agressão naqueles tempos, fim dos anos 80. O II Festcore de Aracaju iria ser realizado no CSU (Centro Social Urbano) do conjunto Agamenon Magalhães – e nós não tínhamos a mínima idéia de onde diabos ficava isso! Pegamos um ônibus, descemos na praça do Siqueira Campos, pedimos informação e fomos a pé na direção indicada. Quando já começávamos a perder a esperança de encontrar o evento, eis que surge à nossa frente a silhueta de uma aglomeração de pessoas também vestidas de preto - não havia dúvida: chegamos! Éramos totalmente desconhecidos de todos e por isso ficamos no nosso canto, tímidos, só apreciando, maravilhados, a movimentação. Não sei quanto a meus amigos, mas eu estava me sentindo a pessoa mais moderna e antenada do mundo, saindo do interior para vir a um festival punk/oi na capital.
Iriam tocar bandas de Sergipe, Alagoas e Bahia. O primeiro Festcore havia se tornado lendário, pois havia reunido pela primeira vez bandas de todo o nordeste e até do norte, o Delinqüentes, de Belém do Pará. Eu, que sou assumidamente da geração Bizz/Rock in rio, não tinha ido, na verdade acho que minha noção do que era punk na época ainda era a que me foi passada pelo Fantástico, que noticiava o surgimento de um novo comportamento agressivo nos jovens dos grandes centros que espetavam os cabelos e ouviam musica barulhenta, mas aquilo pra mim era o mesmo que ouvir falar sobre muçulmanos no Oriente médio ou comunistas na Rússia – tudo muito distante. Aos poucos, porém, comecei a me identificar com a coisa e a achar que, no fim das contas, aquele pessoal excêntrico parecia espelhar melhor o futuro – tinha por volta de 15 anos e era fã da série Mad Max. A coisa começou a ficar séria quando ouvi o Camisa de Vênus pela primeira vez no radio falando palavrões e uma pergunta se recusava a sair de minha cabeça: “E pode ? O cara acabou de dizer que viu a mulher dele, Silvia, com a mão no pau do vizinho, ta tocando no radio com minha mãe e minha irmã na sala, como pode ?” Pronto, havia sido picado e irremediavelmente contaminado: resolvi que compraria aquele disco e assim “Viva, Ao vivo”, do Camisa de Vênus, se tornou a aquisição número 1 de uma coleção que não para de crescer.
A aquisição número 2 foi “Vivendo e não aprendendo”, do Ira! Eram os tempos do estouro do rock nacional e não era tão incomum ver os jovens idolatrando os ídolos da época, como Legião Urbana, RPM e Capital Inicial. Comecei a virar um outsider mesmo quando comprei, de segunda mão, meus primeiros discos de rock “pauleira”: “Somewhere in time” e “Fly on the Wall”, os “novos” do Iron Maiden e do AC/DC. Aí virei um headbanger, só curtia som pesado. Slayer, Metallica e Megadeth eram meus heróis. Lembro que a primeira vez que ouvi Deep Purple e Black Sabbath não gostei, porque não tinham o peso ao qual eu estava acostumado. Mas talvez por morar no interior e, por isso, não ter nenhuma tribo ou grupo de amigos radicais aos quais me associar, sempre fui meio que traidor do movimento, mais aberto a outros tipos de som, e aos poucos fui assimilando o punk rock dos Sex Pistols, o pós-punk do The Smiths e, principalmente, a melancolia guitarreira do Jesus and Mary Chain com “Psychocandy”, um disco que me deixou totalmente atordoado quando ouvi pela primeira vez.
Mas do que eu gostava mesmo eram de guitarras tonitroantes, rebeldia adolescente mesmo. Levava isso como uma profissão de fé, como um “maniac street preacher” buscando a todo custo encontrar ovelhas para seu rebanho. Foi com essa intenção que fiz meu primeiro fanzine, numa época em que eu nem sabia o que era um fanzine, na verdade o que fiz foi uma espécia de “Apostilha” sobre rock que eu datilografava, colava algumas fotos, xerocava e distribuía entre os amigos. Tinha vontade de divulgar o estranho mundo que estava descobrindo e com o qual estava fascinado. A primeira edição do Napalm (era esse o nome da criança, inspirado no logotipo de uma casa noturna de São Paulo que eu havia visto como pano de fundo de um show da Legião Urbana) tinha as biografias de bandas clássicas como Led Zeppelin, Black Sabbath e Venom (que eu curtia mais para chocar), naquela linguagem adolescente de quem sabe muito pouco mas acha que sabe tudo.
A noticia de que havia um fanzine editado em Itabaiana, interior do estado, chegou aos ouvidos de quem fazia rock na capital, graças à ajuda de Passos, um agitador cultural que havia criado a primeira loja de rock independente do estado junto com um amigo, a Distúrbios Sonoros discos. A descoberta da existência dessa loja, para mim, foi como um portal se abrindo para uma nova dimensão que eu sabia existir, mas ficava fora do meu alcance. Estava andando pelo calçadão, com dinheiro no bolso e uma vontade desgraçada de investi-lo num disco de rock, mas a única novidade que as lojas “convencionais” tinham a oferecer era o novo da Plebe Rude, “Nunca fomos tão Brasileiros”, do qual eu não havia gostado (hoje gosto). Foi quando vi um cartazinho xerocado na parede divulgando uma nova loja especializada em rock underground. Meio incrédulo, me dirigi ao endereço citado e eis que me deparo com uma parede recheada com os maravilhosos vinis que eu só conhecia das páginas da Rock Brigade (minha leitura favorita na época) e na Bizz e que eu, quando podia, mandava buscar via correio na Wop Bop, de São Paulo. Inclusive o tão falado “Master of Puppets”, do Metallica, que eu havia acabado de encomendar!!!
A curiosidade e admiração pelo pioneirismo foi recíproca: passei a divulgar o máximo que pude a loja em minha cidade e o dono da mesma, Passos, me ajudou a conseguir uma boa quantidade de cópias do meu zine na repartição da prefeitura onde ele trabalhava. Pude divulgar melhor o Napalm e o retorno foi aparecendo. Consegui aglutinar um grupo de simpatizantes e comecei a receber correspondências do vocalista de uma das primeiras bandas realmente punk de Aracaju, a Karne Krua. Nessa época a figura de Sylvio já era meio lendária, ele era tido como uma espécie de “líder” dos anarquistas (título que ele repudiava com vigor), pois na época a campanha por eles deflagrada em favor do voto nulo chamava a atenção da imprensa. Suas cartas vinham recheadas de panfletos e fanzines punk/anarquistas que me influenciaram bastante na época, cheguei até a dedicar uma edição do meu zine/apostilha à reprodução daqueles textos, o que decepcionou um pouco meus leitores, que estavam mais interessados em diversão pura e simples, mesmo. E foi assim que eu soube que seria realizado o II Festcore, arrumei alguns bravos companheiros para a empreitada e lá estávamos nós, no meio dos punks, carecas e alguns góticos.
Já havia notado que minha camiseta do Slayer estava destoando um pouco do figurino, (haviam primitivas rixas entre punks e bangers, lembram disso? Não consigo pensar em nada mais ultrapassado.) por isso vesti-a novamente do avesso. O clima estava meio tenso mas eu pretendia sair ileso do meu primeiro “walk on the wild side”. Fiquei mais aliviado quando vi um carinha com uma camiseta do Metallica (ainda lembro dela, branca, com uma foto do James Hetfield dos bons tempos berrando com flagrante fúria adolescente). Na época não sabia, mas o nome do figura era Marlio e ele era baixista do Karne Krua. Havia feito questão de ir com aquela camiseta para provocar os caras da banda Jesus Bastardus, de Salvador, que tinham letras falando mal dos headbangers, dentre os quais Marlio tinha muitos amigos.
Naquele tempo, e por muito tempo depois, há de se frisar, show de rock era coisa, basicamente, para homens, eram muito poucas as mulheres que se faziam presentes naquelas baladas pra lá de underground, e algumas delas apareceram no Fest Core, deliciosamente mal trajadas (tava na moda usar blusa aberta com sutiã de renda à mostra), o que completou a festa para meus hormônios adolescentes: show punk, som no talo, clima tenso, garotas seminuas: a noite prometia!
A zoeira começou e as bandas iam se sucedendo naquele velho espírito “do it yourself” que na época era absolutamente novo para mim: os carinhas que estavam pogando no show de uma banda de repente subiam no palco, empunhavam os mesmos instrumentos e começavam a tocar. Jesus Bastardus realmente berrou gatos e cachorros contra os bangers, o que me deixou meio assustado, mas a hora de maior tensão mesmo foi quando estava se apresentando a “Bandeira de Combate”, uma lendária banda skin/oi de Salvador – a policia invadiu o recinto de armas em punho e rolou uma revista, mulheres para um lado, homens pro outro, mas felizmente nada comprometedor foi encontrado e o show pôde continuar. Tocaram ainda Leprozario de Maceió, Azilo Militar, uma banda de Alagoinhas, interior da Bahia, que tinha como peculiaridade um baixista, Jr., filiado e militante de PT, fato raro até hoje nas hostes punk, dominadas pela ideologia anarquista, e as sergipanas Forcas Armadas, Logorreia (banda paralela de Sylvio, acho q foi meu primeiro contato com algo parecido com o grind core, uma barulheira infernal ) e a Karne Krua. Karne Krua foi a que mais me impressionou, pois eu era fã do Cólera e Inocentes a Karne era do mesmo nível, senão melhor.
A noite acabou sem problemas e nós voltamos a pé para a rodoviária, não sem antes presenciar a imagem dantesca de um mendigo velhinho ensangüentado depois de ter sido agredido por vândalos (pra quem pensa que violência urbana é exclusividade dos dias atuais). Na rodoviária encontramos os caras de Alagoinhas e pudemos trocar algumas impressões “interioranas” sobre o evento, que eu sabia que seria um marco em minha vida: de alguma forma era o que eu queria para mim e iria encontrar um meio de me envolver com aquilo. Não deu outra: O terceiro Festcore (de um total de 5 edições) eu ajudei a organizar junto com Sylvio e uma garota que hoje é militante da Igreja Universal do Reino de Deus e marcou a estréia do Câmbio Negro HC, de Recife, em terras sergipanas.

4.1 – Punk rock Hard Core sabe onde é que faz ...
A Karne Krua tem uma qualidade rara nos dias de hoje: a perseverança. A saga da banda continuou anos 90 adentro, virando sua primeira década e o que é mais impressionante: sem nunca parar! Depois de centenas de fitas demo distribuídas incansavelmente via correio por todo o Brasil, já estava na hora deles terem um registro sonoro decente, de preferência no bom e velho (nem tão velho, na época) vinil. Na verdade eles já haviam tido essa oportunidade quando foram convidados a participar de uma coletênea chamada ‘Ronda Alternativa”, lançada por um programa de Rádio de São Paulo e que contava com ícones do cancioneiro underground de todo o país, mas por uma série de motivos, não entraram. O baterista Almada, por sinal, destilava um impressionante radicalismo que o fez publicar uma matéria certa feita no zine Buracaju criticando as bandas que lançavam discos em vinil, acusando-as de se vender ao sistema ao abandonarem o esquema das fitas-demo, já que as bolachinhas negras eram fabricadas por multinacionais (e as fitas k7, não?). Talvez tenha sido esse um dos motivos pelo qual a Karne Krua tenha se empenhado na participação de uma coletânea apenas quando passou pela sua maior e mais traumática mudança de formação, quando saíram o guitarrista Marcelo e o batera Tony, entrando em seus respectivos lugares Fabio e Valdeleno. Uniram-se a alguns ícones do underground nordestino, como Devotos do Ódio, de Pernambuco, e Discarga Violenta, de Natal, mais o Delinqüentes, de Belém do Pará, e lançaram o projeto “Cooperativa do Caos”, com o objetivo de viabilizar uma coletânea 100% independente, como o próprio nome sugere. O disco foi aguardado por muito tempo, mas não saiu: algumas bandas furaram o acordo e acabou seguindo cada um seu caminho. A Discarga lançou sua parte das gravações (todas feitas em Recife) em forma de compacto, o hoje “clássico” “COSMOPOLITA”, e a Karne lançou uma de suas mais badaladas demo-tapes, “SUICÍDIO”. E seguiu tocando onde desse, em Aracaju e nas cidades vizinhas. Tocaram em Maceió e em Recife, este último num show histórico, com a participação de Pedrito, do Câmbio Negro, na guitarra (Fabio, o guitarrista “oficial”, não pôde viajar).
A Karne acabaria gravando seu primeiro disco solo em vinil alguns anos depois, em 1994, e com a formação “clássica”: Marcelo e Almada haviam voltado a seus postos. O LP, auto-intitulado, também foi gravado em Recife, única cidade do nordeste que dispunha de uma infra-estrutura decente na época, com a produção de LA Nino, baterista da Câmbio Negro. O resultado, em termos sonoros, não foi satisfatório: os vocais soavam estranhos e a guitarra sem peso. Mas o repertório era primoroso. A banda estava passando por uma grande fase, compondo novas músicas que posteriormente se tornariam clássicos, como “Mancha de sangue” e “o vinho da história” (esta com letra do poeta e fanzineiro Nagir Macaô, infelizmente já falecido). Tocaram bastante para divulgar o disco, mas basicamente por aqui. Eles tinham (ainda têm) uma grande dificuldade para tocar fora do estado, principalmente por causa de compromissos profissionais e familiares, e estavam sempre mudando de formação: não tardou para Almada sair, desta vez definitivamente. Foi substituído por Rony. Depois foi a vez de Marcelo, que montou uma outra banda, SENSEMILA, com um som mais cadenciado e voltado para o “rapcore”. Para seu lugar foi recrutado Valdeir, um “headbanger”. Sai Rony, entra Valdeleno. Entra Wendell no lugar de Valdeir, depois Mazinho como segundo guitarrista e posteriormente baixista, substituindo Marlio, que vai morar em Recife, e assim sucessivamente. Silvio é a única presença constante na banda ao longo de todos estes anos, e só ele mesmo consegue dizer quantas formações, exatamente, teve a Karne Krua.
Depois do disco seguiram lançando demo-tapes, com maior ou menor repercussão, mas quase sempre num esquema ainda amador, muito embora o resultado surpreendesse, às vezes. Dessa safra saíram “Máscaras para o caos” (que tinha uma interessante versão para “jardim das acácias”, de Zé Ramalho), “Instantes Irreversíveis” (“seco” e “o verdadeiro culpado” são bons exemplos das influências que a banda estava absorvendo e incorporando a seu som na época, notadamente o “rapcore” e o regionalismo) e “Hard core”.
Silvio continuava investindo em projetos paralelos, como o ETC, A Casca Grossa e a Words Guerrilla. ETC era uma banda barulhenta e pornográfica, feita com o principal intuito de ir de encontro ao patrulhamento ideológico punk que era forte na época e enchia o saco com uma série de regrinhas que não podiam ser quebradas. A ETC quebrava todas. Fazia musica sobre o que desse na telha, de uma descrição de uma cagada à exaltação da rapadura, além de muita putaria. Beirava o sexismo, realmente, mas a intenção original era ir de encontro ao falso moralismo. Eu sei disso porque eu também fiz parte da banda – gravei, inclusive, a segunda demo-tape, a antológica “Greatest Hits live”. Já A Casca Grossa era uma espécie de volta às origens do punk, numa época em que a Karne Krua estava bastante influenciada por influências “externas”, como a musica regional. Foi um projeto de Silvio com 3 figuras “das antigas” que não durou muito. Em seu lugar surgiu a Words Guerrilla, com uma interessante proposta de fazer hardcore com um sotaque latino, inclusive com letras em castelhano. Sua primeira demo, “La Fuerza”, marcou época.
Enquanto isso, outras bandas continuavam surgindo meio que no “rastro” da Karne. Uma das mais importantes e que teve uma carreira mais longa e consistente foi a Sublevação, montada no comecinho dos anos 90 por Tacinho. Faziam um som bem “tradicional”, “casca-grossa”, emulando o punk brasileiro dos anos 80, embora nos anos 90 tenham sofrido influência da cena de Nova York e seus flertes com o rap (os headbangers chamavam de Hard Core “pula-pula”). Se dedicavam mais a shows do que à produção de demos, geralmente bem toscas. Tocaram em praticamente todos os lugares que abriram espaço para o rock underground na cidade ao longo de seus mais de 15 anos de existência. A Sublevação, na verdade, nunca acabou “oficialmente”- encontra-se ainda hoje, ao que parece, em estado de hibernação. É o que deduzo do fato de que sempre que encontro Tacinho ele fala que estão voltando a ensaiar e vão voltar a tocar, coisa que não acontece a um bom número de anos.
Havia também, nos anos 90, uma galera mais radical e envolvida com o movimento anarquista que sempre estava montando bandas, geralmente de curta duração – As mais conhecidas eram Plasma, olho por olho e Putrefação Humana. A PH foi criada originalmente pelo falecido Ricardo “Core”, em Penedo, remontada em Itabaiana e adotada por Cícero Mago, Salsichão e, mais tarde, Ulisses - que era egresso de uma outra banda grind, esta já da segunda metade da década, a Cicatriz. O Olho por Olho se definia como “uma banda de grindnoisecore” e foi fundada em 1991 por Xavier (guitarra), Marcelo Prata (vocal) e Paulo (bateria). Já com outro baterista, Chico, fizeram seu primeiro show naquele mesmo ano, num evento chamado “SUBNUTRIÇÃO” ao lado das bandas Cleptomania, Camboja, Refugo de Belsen, Alucinoise Alucinógena, Anal Putrefaction e Logorreia. No ano seguinte lançam sua primeira demo-ensaio, “à beira do caos” e segue tocando. Deram uma longa parada e voltam em 2002 com uma nova demo, “deserto”. Seguem tocando esporadicamente até hoje.
Já a Plasma era uma espécia de “quem é quem” do movimento anarco-punk, com indivíduos já “calejados” na cena: Nininho (ex-sublevação) no baixo e vocal, Cícero Mago na guitarra e vocal e Tacinho (vocalista da Sublevação) na bateria. Tocavam sempre nos eventos mais ligados ao N.A.D.A. (Núcleo de Ação Direta de Aracaju), do qual fazia parte outras bandas, como a Gangrena Social e a Putrefação Humana. Numa segunda formação, que durou até 1997, com a entrada de Cabelo na guitarra, Cícero Mago indo para a bateria e Tacinho para o baixo, gravaram duas demos (posteriormente reunidas em uma só, entitulada “Nossa luta”) e um vídeo Ao Vivo em João Pessoa, na Paraíba.
E havia Cabelo, sempre inquieto, sempre participando ou montando, ele mesmo, suas bandas – caso da Los Repugnantes. Já mais para o final da década ele enveredou pelo mundo do indie rock “low profile” com o projeto HWH – Hair Without Head.

4.2 – Os shows
Os shows, os memoráveis shows da virada da década de 80 para a de 90 ! A precariedade era a mesma, mas os abnegados “promotores” já eram outros, com um gás novo e uma vontade incrível de ver as coisas acontecerem. Foi por essa época que comecei minha “militância” propriamente dita como “agitador cultural”. Junto com Sylvio e uma garota que andava com os punks ajudei a organizar o III FESTCORE DE ARACAJU. Cheguei inclusive a investir a grana que estava guardando para comprar uma bateria e montar minha própria banda (um sonho que acalentava há tempos) no pagamento adiantado da aparelhagem de som. Não tivemos lucro, mas conseguimos recuperar o dinheiro investido, o que foi uma grande vitória. O evento foi super-problemático, mudou de datas algumas vezes e acabou sendo realizado num dia e horário extremamente inusitados, um domingo, por volta das 11:00 da manhã, no Auditório Lourival Batista. Mesmo assim atraiu um bom publico, não apenas da cidade, mas também de cidades vizinhas, como Salvador e Recife.
Era a primeira vez que o Câmbio Negro HC tocava em Aracaju, o que causou uma certa expectativa no meio. Eles já tinham vindo tocar aqui nos anos 80, junto com um Mundo Livre S/A em início de carreira (Fred 04 já havia sido guitarrista da Câmbio Negro), num evento que seria realizado na Barra dos Coqueiros e que se revelou mais uma barca furada, dentre muitas pelas quais embarcavam (e ainda embarcam) todos aqueles que trilham o caminho da musica independente. Lembro que haviam muitos punks oriundos de Salvador, com visuais absurdamente esdrúxulos. Um deles estava com a calça tão detonada que seus colhões vazavam por uma abertura na altura da virilha, deixando-os à mostra. Foi cômico notar que a diretora do Auditório foi tomada de surpresa pela aparência da audiência, me parece que ela não esperava um publico tão excêntrico, mas mesmo assim foi muito simpática, chegando inclusive a nos servir, produtores e publico (que se misturavam e eram a mesma coisa, como deve ser no espírito “do it yourself”), cafezinho. Inclusive para o cara com os colhões vazando pelas calças, não sem um mal-disfarçado e compreensível ar de constrangimento.
Nesse dia descobri, literalmente o “peso” de uma boa aparelhagem de som, pois tivemos que ajudar no trabalho de montagem do equipamento, eu e Sylvio, para diminuir o atraso. Mas o festival começou, valeu o esforço e todos foram felizes. Bom, nem todos: num determinado momento, a Diretora do Auditório sobe ao palco e pede o microfone para reclamar que alguém havia defecado na parte superior do Auditório. Para que o evento prosseguisse, literalmente, “a merda teria que ser limpada”, e lá se foram os produtores, Sylvio e Ivânia, limpar cocô (felizmente eu estava ausente naquele momento e não fui convocado para a ingrata tarefa). Câmbio Negro tocou com o guitarrista da banda Cérbero, também recifense, e que também se apresentou no evento, substituindo Pedrito, que não pôde vir, na guitarra. Tivemos ainda Subversivos, de Alagoinhas, Bahia, e bandas locais de estilos diversos como Karne Krua, Deuteronômio e Refugos de Belsen.
Os tempos eram outros: havia um esforço de união entre as tribos e os punks encararam numa boa a presença de uma banda de metal entre eles. “United Forces”, por sinal, era o nome de uma série de eventos promovidos por Carlinhos “Verruga” nesse mesmo auditório com o objetivo de unir as forças(sic) do metal e do Hardcore em prol da viabilização de shows de bandas de fora do estado que estavam em evidência na época, como Nephastus, da Paraíba, que lançou por aqui o clássico LP “Tortuous ways” numa noite memorável porém com uma qualidade de som abaixo do inclassificável. Tocou também no Auditório a legendária Headhunter DC, de Salvador, já pela segunda vez na cidade. A primeira vez foi num dos primeiros shows de rock realizados no Cotinguiba Esporte Clube, no Bairro São josé, com abertura e (dês)organização do impagável vocalista/baterista Cebola, da Logorréia. Este foi, por sinal, o ultimo show da Logorréia com aquela formação (Silvio se recusa a deixar suas bandas morrerem), ainda com Robério, que depois se mudaria para São Paulo, no contrabaixo. O Cotinguiba, depois, acabaria se tornando por muito tempo um "point" roqueiro da cidade, abrigando eventos como o projeto "UNIÃO DAS TRIBOS". que rolou durante os Sábados de Julho de 1994. O "prêmio" para as bandas locais seria a gravação de um cassete-demo para quem vendesse mais ingressos - não há registro de que alguém tenha "faturado" a parada.
Tive um reencontro com eles num trágico gig no conjunto Santos Dumont. A imagem do show bombástico que eu havia visto no II Festcore ainda estava fresca em minha mente. A caminho do evento, de ônibus, ainda fui exortado a desistir da empreitada por alguns conhecidos que eu havia encontrado por acaso, e que me alertaram: “show de rock, essa hora da noite, no Santos Dumont ? Se eu fosse você, desistia e voltava pra casa.” O Bairro tinha fama de violento, fama essa que se confirmou no final da gig, quando os “roqueiros” foram abordados por um grupo de “Brown” (como eram chamados os malucos “axé” por aqui e em Salvador) armados. Houve disparos, que atingiram Irani, irmã de Ivânia e, na época, baterista das Sub-suburbanas. Foi quando saiu da boca de “Esgoto”, um punk soteropolitano que andava muito por estas plagas, o seguinte comentário: “Porra, Aracaju ta ficando massa, tem até tiroteio”. Eu, por sorte, tinha saído um pouco antes, para não perder o ônibus, mesmo perdendo a esperada apresentação da banda de grindcore CAMBOJA, então com Jamson Madureira na bateria, Fúria no vocal e Sérgio na guitarra. Eu havia travado contato com eles algum tempo antes, num evento realizado num barzinho bacana chamado Zero Grau que funcionava na Praia 13 de Julho, junto com a Anal Putrefaction, e havia gostado muito. Também tinha visto alguns desenhos que o baterista, Madureira, havia feito para o logotipo da banda, e achei muito bons, chegando inclusive a publicá-los na primeira edição do meu novo zine, ESCARRO NAPALM, saudando-os como a maior promessa do então efervescente underground sergipano. Lembro que comentei que havia gostado do nome para o vocalista, Fúria, perguntei quem havia batizado e se era uma homenagem à guerra do Camboja. Ele disse que tinha sido o baterista, mas que ele só sabia que era um lugar onde morreu um monte de gente, no que, por sinal, estava certo, diga-se de passagem.
Nunca foi fácil fazer eventos “underground” em Aracaju. Nos anos 90 a situação melhorou consideravelmente em relação à década de 80, mas mesmo assim era difícil – daí o verdadeiro Oasis em que se transformou o Mahalo, já que foi lá que as bandas tiveram uma acolhida fora de série, continuada e sem preconceitos de nenhum tipo. Mas outros espaços acabavam surgindo, mesmo que por pouco tempo, e eram igualmente importantes, especialmente depois do fechamento do bar do simpático e inesquecível Jajá. O cotinguiba, clube social situada num bairro nobre da cidade, abrigava principalmente a cena metal. O pioneiro na utilização do espaço foi Anderson Lima, então com sua recém-formada produtora, a Destruction produções, com um show de uma banda heavy soteropolitana chamada Zona Abissal. Aberto o caminho, outros seguiram a trilha e por um bom tempo passou a haver shows de rock por lá praticamente todo final de semana, e dos mais variados estilos. Um dos mais bizarros foi um festival punk promovido por Tacinho, da Sublevação, onde o vocalista Morcego, da BOSTA RALA, de Salvador, se apresentou nu. Eu mesmo, junto com os caras da Karne Krua, tentei montar uma produtora e nosso primeiro e infelizmente único (porque fracassado) show foi com a banda Câmbio Negro HC, de Recife, no Cotinguiba. Tomamos um prejuízo imenso, mas podemos ter o orgulho de dizer que fizemos o show mais profissional da época, com uma aparelhagem decente, iluminação e gelo seco, coisa que não existia em shows de rock alternativo até então.
Outro espaço que marcou época, não necessariamente pela qualidade, foi o 799, que ficava literalmente “numa quebrada”, uma “rua” enlameada totalmente escondida ali por trás do Farol da Coroa do meio. O ambiente era propício para o uso de substancias ilícitas, e isso se refletia na qualidade da “audiência” – as pessoas pareciam ir lá muito mais interessadas em poder fumar e cheirar sossegadas do que ver as bandas em si. Lembro de alguns momentos deprimentes, como um show do Lisergia, de Salvador, onde entre uma música e outra dava até para ouvir o barulho dos sapos coaxando e dos grilos cantando, tamanho o silêncio fúnebre que se apossava do recinto. E nem era por falta de público em si, era porqueque a galera fumava e bebia muito e depois “morgava” - só se via gente deitada pelos cantos. Vale registrar a única apresentação ao vivo da MARLIO TÁ IRADO, banda formada por Teleu no vocal, Xavier na guitarra e Jamson Madureira na bateria. O nome surgiu do mau humor do ex-baixista da karne krua, que ficava “irado” com essas bandas de nome engraçadinho tão em voga na época. A idéia do nome em si era boa, mas a salada sonora foi um tanto quanto indigesta, com Teleu fazendo vocais guturais em cima de uma guitarra dedilhada em estilo pós-punk a La Legião Urbana de Xavier e a beteria cheia de contratempos de Madureira. Foi tão ruim que o vocalista se desculpou ao final da apresentação e a banda acabou ali mesmo.
Foi lá também, no Espaço 799, que aconteceu a equivocada primeira vinda do Eddie, seminal formação pré-mangue beat do Recife, em Aracaju. Tocaram para um publico totalmente “nada a ver”, repleto de punks e metaleiros que não absorveram a proposta musical da banda, ainda calcada no rock garageiro porém já distante do que o povo do rock estava acostumado a ouvir. Ainda lembro da pagação de Roger (depois Bomsucesso Samba Clube) no microfone, falando pra galera que eles deveriam abrir mais a mente para outros sons e parar de ficar ouvindo só Iron Maiden, até ser interrompido por Fabio Trummer, que parecia estar mais interessado em terminar o show e dar o fora dali.
Na orlinha Bairro Industrial (antes da reforma) funcionava a pista de Skate de “Rato”, que ficava num belíssimo casarão antigo. Lá aconteceram inúmeros shows, geralmente promovidos pela DESTRUCTION PRODUCTIONS de Andinho, com bandas de Salvador e Maceió, como Dois Sapos e meio, Inkoma, Avoid e Ball (de onde saiu Wado). Haviam também alguns shows no Cultart, Centro de Cultura e Arte da Universidade Federal de Sergipe. Lá se apresentaram grandes nomes como o Mundo Livre S/A e a banda de Hardcore portoalegrense No Rest, que pegou um carro e resolveram fazer uma tour do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Num desses shows Bruno Montalvão, da MARGINAL PRODUÇÕES, resolveu promover uma boate no Porão do Cultart, o que foi um tremendo sucesso e teve várias edições. Depois de um tempo e devido a complicações com a reitoria da universidade, o evento migrou para o DCE da Praça Camerino e passou a se chamar “Castelo Rá TIM Bum”, apenas com discotecagem, mas algumas vezes associado a shows que por lá aconteciam, dos quais destaco um do macacongs 2099 em que a policia interviu e só permitiu que a banda terminasse sua apresentação com as portas fechadas, causando a fúria dos que ficaram de fora e foram severamente reprimidos na base da metralhadora em punho. Foi bizarro.
Muito mais raramente aconteciam shows também no interior. O primeiro foi em Itabaiana, com a “nata” da cena punk underground local, karne Krua, ETC, Cleptomania e outras. Foi na Sede dos Trabalhadores, clube que algum tempo depois recebeu a banda crossover REALIDADE EMCOBERTA do Recife, numa miniturnê pelo interior sergipano acompanhada da Anal Putrefaction. Em Estância aconteceu o TÚNEL METAL, com o THE CROSS, de Salvador, que acabou gerando uma confusão e a interrupção do evento, para desconsolo das bandas que iriam tocar na sequencia. Alguns shows foram feitos também em Carira, sertão sergipano, o que gerou uma violenta repressão aos mirrados roqueiros locais por parte da tradicionalmente truculenta “autoridade” policial, que os acusava de levar um bando de maconheiros de Aracaju para perturbar a paz publica e perverter a juventude da cidade.
Fora estes shows acontecidos em espaços que, eventualmente, abriam as portas para as bandas alternativas, haviam algumas situações “sui generis”, como da vez em que Vicente Coda conseguiu o Augustu´s, a mais tradicional casa de espetáculos da cidade (uma espécie de “canecão sergipano”) para um evento totalmente protagonizado pelo rock. Era um Festival Beneficente, destinado a angariar fundos para o Hospital de Cirurgia, que encontrava-se em situação crítica na época. Houve, inclusive, chamada na televisão, na afiliada local da Globo, patrocinada pela Fundação Augusto Franco! Foi surreal ver as bandas que eu estava acostumado a assistir em estruturas pra lá de precárias no palco “chic” do Augustu´s com sonorização de Ricardo Sá, já nesta época (e bem antes, até) o melhor som da cidade. Lembro que a Karne Krua fez uma apresentação totalmente “zoada” (os caras estavam completamente bêbados, o que nem era lá tão comum) mas mesmo assim soou bem melhor do que o costume. Vicente se apresentou com um dos zilhões de projetos dele que eu não lembro qual era, e a noite foi encerrada pelo Warlord, que assim que subiu ao palco mandou um sonoro FODA-SE para a produção do evento, numa lavagem de roupa suja em público ligeiramente constrangedora ...
Por falar em Ricardo Sá, lembro que a Karne Krua, durante um bom tempo, ficou proibida de tocar em seu som já que Silvia havia, segundo ele, quebrado um de seus microfones (ele nega). Para driblar a proibição chegaram a tocar, numa ocasião, com o nome de “Silvio e sua banda suburbana”.
Houve também um grande show que não houve: Plebe Rude, no Ginásio de Esportes Constâncio Vieira. Foi anunciado, teria a abertura da karne krua, mas uma súbita proibição de entrada de menores de idade, aliada a uma repressãozinha policial básica na entrada, tomando coturnos e gandolas do público, inviabilizou o evento.

4.8 – Fanzines
O movimento “fanzineiro” de Aracaju seguiu firme e cresceu muito nos anos 90. Sylvio, da karne Krua, continuava publicando periodicamente seu clássico “Buracaju”, mas desta vez já não navegava mais sozinho pelos mares da troca de papel xerocado. Em 1991 em comecei a publicar meu zine de maior repercussão e que me trouxe muitas amizades e oprtunidades de viagens pelo Brasil, o Escarro Napalm. A primeira edição foi tosca e ainda com aquele clima meio adolescente, apesar de eu já estar na casa dos 20 anos. A capa fui eu mesmo que fiz. Já a segunda edição publiquei em conjunto com o Buracaju de Silvio – foi uma iniciativa inédita e ousada para a época, não me lembro de nenhum outro exemplo de dois fanzines lançados em conjunto numa mesma edição. A temática começou a ser menos politicamente correta e mais escrota, pornográfica até, o que irritou muitos punks que passaram a nos acusar, principalmente a Silvio, que era uma espécie de referência dentro do “movimento”, de sexismo. Olhando agora de longe, não deixavam de ter uma certa razão, mas nossa intenção era mais a de ir de encontro ao bom-mocismo e panfletarismo dos caga-regras de plantão. A partir da terceira edição já tinha um bom número de contatos pelo Brasil afora e pude contar com uma rede de colaboradores, especialmente na questão de arte gráfica propriamente dita, que era o meu ponto fraco. Tive a honra de ter em meu zine o trabalho de grandes artistas marginalizados do underground nacional, como Claudio MSN, Henry Jaepelt, Edgar S. Franco, Yuri Hermuche e Joacy Jamys. O ponto alto desta trajetória foi o convite que me foi feito para participar de um importante festival independente promovido pela prefeitura municipal de Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1994, para onde fui com passagem e hospedagem pagas para participar de um seminário sobre fanzines e onde pude conhecer pessoalmente uma boa parte de meus amigos de correspondência. Foi meu momento “rockstar”, do tipo tomar chá com torradas no café da manhã com os caras do Fugazi e tentar desviar da guerra de comida promovida pelos então moleques metaleiros do Anathema durante o almoço. Inesquecível. Silvio ampliou seu leque de publicações com o Microfonia, dedicado exclusivamente à divulgação de bandas, e o Ultralibido, mais voltado para a sacanagem propriamente dita, deixando o Buracaju meio de lado. Publicava também um informativo chamado A BOMBA, com uma folha oficio em 3 dobras, e o CANAL DIRETO, dedicado exclusivamente a notícias sobre a Karne Krua.
Ainda na década de 90 um grupo de punks se juntou e publicou, com uma qualidade gráfica razoável e uma periodicidade exemplarmente regular, o informativo HUMANISMO, um pequeno órgão de divulgação anarquista. Os textos eram excessivamente rasos e panfletários, mas era válido pela dedicação a uma boa intenção. Além do Humanismo a galera mais punk costumava lançar alguns fanzines que não costumavam passar da primeira ou, no máximo, segunda edição. E haviam as publicações mais exprimentais, usando e abusando de colagens de imagens e fotos, como o EXPRESSÃO MUDA, de Cícero Mago, e os fanzines de Fúria. Jamson Madureira era colaborador contumaz de todos com suas belíssimas ilustrações e passou a publicar seus próprios fanzines de quadrinhos no final da década, chegando a criar um personagem própria, Automazo, sempre envolvido em situações marginais regadas a sexo, drogas e alucinações e banhadas num texto imerso em surrealismo.
Já numa linha mais ligada à literatura havia o SINAGOGA´S BUTTERFLY, de Daniela Gomes, Clarck Bruno e Sergio “Dedão”. Publicava contos e Histórias em quadrinhos, basicamente. Outro ativista desta seara foi Teleu, com a sua “Zé Guiaba produções” publicando fanzines dementes e divertidos que mesclavam poemas “nonsense” com textos divagantes. Não tão divertidos, no entanto, quanto o Putrefy, um dos únicos de que tenho notícia que era publicado no interior, na cidade de Estância, por Alberto “Pereba”. Era um verdadeiro tapa na cara do falso moralismo, escrachado, safado, escroto e escatológico ao extremo. Memorável – e raro, as poucas cópias existentes são únicas, já que o autor tinha o peculiar costume de queimar os originais das edições publicadas.
Mas o melhor fanzine sergipano da década e provavelmente de todos os tempos foi o CABRUNCO, editado por Adolfo Sá (hoje blogueiro) em parceria com Rafael jr. e Márcio “de Dona Litinha”, que na época tinha uma banda chamada MILLER BABES (responsável pelo primeiro show do Pato Fu em Aracaju, no extinto Batata quente da Orla de Atalaia) e atualmente é cantor e zabumbeiro da Naurêa. Começou timidamente, numa edição fininha porém com uma já bela e provocativa arte de capa desenhada por Eduardo Oliveira, outro grande talento local pouco conhecido. A publicação foi ganhando corpo e conteúdo com o tempo até chegar a um nível de excelência nunca antes visto por aqui. Os textos de Adolfo Sá eram excelentes e bastante sinceros, inclusive nas resenhas de shows que fazia, o que o tornou alvo da fúria de alguns egos machucados, culminando com um célebre quebra pau na frente do Cotinguiba, quando um dos artistas criticados foi tomar satisfação e, ao receber uma resposta igualmente sincera e direta como resposta, reagiu com chutes e pontapés. Já Rafael jr, que era encarregado das resenhas de discos, pegava mais leve e tinha mais jogo de cintura. Marcio, que é também professor de Redação, fazia uma interessante sessão de literatura. O Cabrunco teve grande repercussão nacional, com direito a resenha elogiosa na Folha de São Paulo, e até hoje é citado como uma das grandes publicações alternativas do Brasil, ao lado de nomes como PAPAKAPIKA, PANACEA E MASTURBAÇÃO, IOGURTE E ROCK AND ROLL.


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